sábado, 28 de janeiro de 2012

Jatos Particulares e Muita Festa

David Guetta, o maior DJ do mundo, vive entre luxo, famosos e uma noite que parece não acabar nunca

A pior coisa quando se voa para Ibiza no jatinho particular de David Guetta é que o teto é muito baixo. Por isso, quando você precisa usar o banheiro depois de duas taças de champanhe, é necessário abaixar a cabeça um pouco para não batê-la na porta. A segunda pior coisa quando se voa nesse jatinho ou, em geral, na vida do DJ é... nada. O avião de Guetta – um Cessna CJ3 bimotor, pilotado por dois alemães sorridentes chamados Thomas e Manuel – voa acima do Mediterrâneo, na tarefa de levá-lo para a Fuck Me I’m Famous, balada semanal que ele comanda em Ibiza durante o verão. É provavelmente a festa dance mais celebrada no mundo – atraindo gente que vai desde Dr. Dre até Jean Paul Gaultier. Há alguns anos, Will.i.am apareceu e Guetta chamou-o para a cabine, para fazer um freestyle; não é exagero dizer que aqueles poucos minutos mudaram o som do pop contemporâneo.

Com poucas exceções notáveis (Daft Punk, Fatboy Slim), a dance music europeia sempre foi uma daquelas coisas que a América do Norte nunca entendeu direito – assim como Roberto Benigni ou o socialismo. Mas, desde que os Black Eyed Peas transformaram a pulsante eurohouse em ouro nas paradas com a insanamente popular “I Gotta Feeling” (que Guetta produziu) e “Boom Boom Pow” (que usava o mesmo sample que Guetta tocou para Will.i.am naquela noite), o pop norte-americano passou a ter uma batida continental. Hoje, é impossível passar cinco minutos ouvindo uma rádio em qualquer lugar das Américas – inclusive no Brasil – sem ouvir uma música que soe como uma produção de Guetta (e muitas delas são mesmo). Os títulos são intencionalmente genéricos e facilmente internacionalizáveis – “When Love Takes Over”, “Little Bad Girl”, “Without You” – mas essa onipresença está transformando Guetta em uma nova entidade: um autêntico DJ pop star.

Criado em Paris, Guetta sempre soube que queria discotecar. “Lembro-me de uma reunião com meus pais e um professor de matemática quando eu tinha 14”, ele diz, entre mordidas em um suflê de framboesa, com a luz do pôr do sol brilhando púrpura através da janela do avião. “Eles disseram: ‘Você está com problemas – não está estudando’. E eu: ‘Quero ser DJ – não preciso ser bom em matemática!’”

Não demorou muito até que conseguisse um emprego tocando em uma balada gay – ele era um rapaz magrelo (e heterossexual) de 17 anos que legalmente não deveria nem estar lá dentro – e, a partir daí, seguiu-se uma lenta e constante jornada até atingir a posição de atração principal em festivais de dance, tocando para 80 mil fãs enlouquecidos. “Sempre tive uma boa conexão com as pessoas”, diz Guetta. “Essa é a coisa mais importante quando você é DJ. Mas o que realmente me fez explodir foi quando criei esse som novo – eletro misturado com o soul urbano. Isso se tornou o novo padrão da música pop norte-americana hoje.”

Guetta fala de seu sucesso de uma maneira natural, afetada, mas sem excessos – o suficiente para não soar como se estivesse se gabando. “Muita gente acha que os franceses são arrogantes. Mas sério: só estamos dizendo a verdade.” Ele também expressa espanto ao pensar como o filho de um professor de sociologia judeu-marroquino acabou em uma reunião com Bono e colaborando com Will.i.am em um projeto para a Nasa. E há coisas como sua recente visita a Atlanta com Akon. “Ele me levou em uma casa de strip chamada Magic City”, diz Guetta. “Eu nem sabia o que ‘fazer chover’ significava. Ele me deu uma pilha de dinheiro” – ele faz um gesto do tamanho de um cofrinho – “e disse: ‘Ok, você tem que jogar o dinheiro para a garota’. E eu disse: ‘Jogar dinheiro para o alto? Isso vai contra toda a minha educação!’ E ele: ‘Yeah – é por isso que fazemos!’”

Quando Guetta chega a Ibiza, uma van o pega ainda na pista de pouso e o leva até a Land Rover que o aguarda. Depois de uma rápida passada em casa para deixar suas malas e tirar um cochilo, ele volta à ativa na Pacha, a fortaleza dos prazeres que serve de lar para a Fuck Me I’m Famous, onde três mil fãs – russos, alemães, espanhóis e suecos, cada um pagando 70 euros pela entrada – formam filas para comprar vodca com soda a 15 euros. Na área VIP, infinitas garrafas de Grey Goose são despejadas nos copos de mesas que chegam a custar 6 mil euros. Os homens são ricos e bronzeados, as mulheres parecem ter mais de 2 metros e são lindas. O banheiro é uma Babel de delícias.

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