Esse ano de 2011 será lembrado com muito carinho por quem gosta de rock japonês aqui no Brasil. Só nesse segundo semestre tivemos a estreia triunfal do X Japan, Miyavi tocando no SWU, e os retornos de Versailles e Dir en grey para shows exclusivos. Enquanto digerimos quão bons foram os shows (a distância do término ajuda a refletir se foram ou não "tudo isso"), sonhamos com um próximo ano ao menos nesse mesmo ritmo. O caso do Dir en grey é o mais recente, já que no dia 27 de novembro fizeram no Espaço Lux (São Bernardo do Campo) um retorno empolgante aos palcos brasileiros.
Se a excitação não era tão grande comparada com a estreia (no Festival Maquinária de 2009) a certeza de sucesso era bem maior. A fila já se formava dias antes do show, por gente que chegou a dormir na rua em busca de um bom lugar na grade, e, especialmente, a chance de ficar pertinho do quinteto no "meet and greet" (o encontro para autógrafos - anunciado inicialmente para 100 pessoas, mas reduzido pela metade horas antes de acontecer).
Na fila também já se podia perceber uma grande quantidade de fãs que não eram de São Bernardo (eu mesmo nunca tinha sequer passado pela cidade), mas que foram passar pelo menos o domingo de sol por lá. Caravanas de várias cidades, sobretudo da capital paulista, estacionavam suas vans nas ladeiras próximas da espaçosa casa de shows (mais um ponto positivo pro pessoal da Negri Concerts).
10 Years e dois anos de espera
Confesso que conheci 10 Years por conta do show do Dir en grey. A banda americana que tem acompanhado a turnê dos japoneses foi uma grande surpresa, bem como a calorosa recepção do público. Fato que a atitude da banda pesou pro sucesso do show, com simpatia e uma boa dose de comunicação.
O grupo trouxe um pouco do álbum Feeding the Wolves (de 2010), com destaque pra faixa de abertura, Shoot It Out, que finalizou o show. Logo após a despedida do vocalista Jesse Hasek, imperou o coro por "Dir en grey!".
Setlist/10 Years: Now Is The Time (Ravenous); At A Loss; Chasing The Rapture; Empires; Fix Me; Fade Into (The Ocean); Russian Roulette; Wasteland e Shoot It Out
Que o público respeitou e curtiu 10 Years isso não há dúvidas, mas que a expectativa era apenas pro evento principal, ah, isso também é inegável. Afinal, dois anos de espera depois de debutarem no Maquinária de 2009 (na noite em que o Evanescence foi headliner).
Ao vivo - Melhores do que antes
A introdução Kyoukotsu no nari, que abre o mais recente álbum (Dum Spiro Spero, o 8º do grupo) também iniciou o show em São Bernardo. Dando assim um pouco da tônica dessa turnê: apresentar ao mundo o trabalho atual, e não um apanhadão da carreira - como tanto querem os fãs com quem conversei.
Mas esses mesmos fãs já estão "vacinados" pelo conhecimento, e sabem bem que o estilo do quinteto japonês é o de seguir sempre adiante, explorando os limites da criatividade (quer agrade seus ouvidos ou não). O flerte constante é com o que há de mais pesado na carreira da banda, vide as afinações das guitarras de Die e Kaoru, e do irresistível baixo de Toshiya. Ruten no Tou abriu pra valer o show mostrando todo potencial "destrutivo" do DEG.
O baixista de longe foi o mais carismático no palco, sorrindo enquanto espancava o instrumento, embora a banda estivesse bem solta. Um pouco mais de comunicação faria bem ao Dir en grey em suas empreitadas no exterior, como por exemplo no fraco show que fizeram no Wacken desse ano.O idioma não é desculpa: quando o artista quer, dá se um jeito sim. Afinal, o Kyo não canta em inglês também? De qualquer forma a conexão com os fãs foi especial, principalmente com os das primeiras fileiras. Os mais sortudos levaram pra casa as habituais palhetas, baquetas e garrafas plásticas.
De qualquer forma não é difícil apontar esse como o melhor momento da carreira deles, ao menos nos shows ao vivo. Tecnicamente foi mais show do que o do Maquinária (em que a banda não pareceu tão solta). Menos pose, mais intensidade. Como no discreto baterista Shinya, o caçula do grupo, que só aparece mesmo é quando interessa: fazendo música de qualidade. Já Kyo, segue performático como sempre, mas se entregando sem precisar de muito teatro (sem sangue ou vômito fake). É um frontman que rouba o show para si, e, naturalmente, é o ponto alto (com ajuda de um "banquinho" para compensar a estatura, é verdade). Um monstro tatuado que arranca de dentro de si guturais mais graves que a (já gravíssima) afinação da banda. Gritos que parecem de raiva ou sofrimento, mas que são devolvidos por gritos ainda mais altos, de uma plateia em transe. Quais outros vocalistas fazem o que Kyo faz?
O bom ali era bater cabeça, e entrar na roda (mas com moderação!), já que pelo menos no início, os seguranças da casa estavam coibindo as rodinhas. E repreendendo severamente até mesmo quem tirasse a camisa - e olha que o clima estava quente por lá. Mas como se segurar em Obscure, hit do álbum Vulgar, que deve ter deixado dolorida uma dezena de pescoços? Vale lembrar também que a casa não vendia bebidas alcoólicas, frustrando o pessoal que queria pelo menos uma cervejinha - sorte de quem pegou a garrafa de vidro que Toshiya arremessou no final do show.
Continuo achando a escolha do repertório do Dir en grey ousada à beça. Não são todas as músicas que podemos dizer "nossa, essa daí é pra cantar junto". Porque não são - pelo menos para a maioria, excluindo claro a fiel "turma da grade".
Quem foi no show curte muito a banda, isso sempre foi claro.
Se há algo que diferencia as melhores bandas ao vivo isso pode ser considerado a variedade do setlist. A flexibilidade da turma do DEG é de tirar o chapéu. Mazohyst of Decadence foi uma grata surpresa. Não esperava por música do Gauze, álbum co-produzido por Yoshiki do X Japan, e que é o "do coração" de boa parte dos fãs que curtem Kyo & Cia por mais de uma década - embora nem todo mundo admita. Além de Mazohyst (tocada pela metade, sem a parte da "conversa"), o outro grande momento foi Kodou, do álbum de 2005 Withering to Death, logo no retorno no bis (a maioria esperava por The Final, como em 2009) que fez a galera pular pra valer.
Do novo álbum destaque para as matadoras Lotus e Hageshisa to Kono Mune no Naka de Karamitsuita Shakunetsu no Yami. Irretocáveis.
A Rasetsu Koku nova, bônus do Dum Spiro Spero, eu trocaria pela antiga, do genial Macabre - sem peso algum na consciência. Aposto que animaria ainda mais a roda de saideira. Mas, no final das contas o sorriso de quem passou aquele domingo em São Bernardo estava mais do que garantido - não importando se os dentes eram tortos ou não.
Além-show
Se perguntarmos para a banda qual o estilo musical da banda provavelmente responderão com o (clichê do momento): "nosso estilo é o Dir en grey ". Mas o metalcore com toda inspiração (ou resquícios) de visual kei que o Dir en grey toca hoje em dia abre um leque de possibilidades de público - embora não perceba muita diferença em quem curte DEG agora e quem curtia 10 anos atrás. Abriu o mercado, mas não escancarou.
Provavelmente a sonoridade oriental (não apenas japonesa, mas até toques "hindus") seguirá rotulando a banda com alguns preconceitos, justificados pelo "exótico", e o tal estrelato não passará muito do ponto que chegaram agora. E é pouco? Jamais. Que outra banda de rock japonês conquistou tanto nas aventuras além-arquipélago do que o DEG? Mas até que ponto esse show deve ser encarado como um show de "rock japonês" e não simplesmente um bom "show de rock"?
Setlist/Dir en grey:
Kyoukotsu no Nari (Instrumental);
Ruten no Tou;
Hageshisa to Kono Mune no Naka de Karamitsuita Shakunetsu no Yami;
Obscure;
Lotus;
Rotting Root;
Shitataru Mourou;
The Blossoming Beelzebub;
Mazohyst of Decadence;
Tsumi to Batsu (Tsumi to Kisei);
"Yokusou ni Dreambox" Aruiwa Seijuku no Rinen ni Tsumetai Ame;
Different Sense;
Juuyoku;
Decayed Crow;
(BIS)
Kodou;
Reiketsu Nariseba;
Rasetsukoku;
Vanitas (Instrumental)

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